Em 2023, realizámos uma viagem de pesquisa e aprofundamento à Floresta Amazónica peruana, integrada num percurso de estudo contínuo que sustenta e fundamenta o trabalho desenvolvido no Satsang. Esta travessia não teve carácter turístico, mas sim experiencial e ético, orientada pelo respeito às culturas originárias e aos seus modos próprios de transmissão de conhecimento.

Quem é povo Shipibo-Konibo

Durante este período, tivemos a oportunidade de nos aproximar da cosmovisão do Povo Shipibo-Konibo, permanecendo 30 dias em imersão na floresta, num contexto de aprendizagem direta e acompanhamento tradicional, através da prática conhecida como dieta das plantas mestras. Este processo exige recolhimento, disciplina, silêncio e escuta profunda – condições essenciais para compreender que o conhecimento, neste território, não se transmite por acumulação de informação, mas por relação, tempo e experiência.

Na floresta, desaprendemos muitos dos automatismos trazidos da chamada “selva de pedra”. Afastámo-nos do ruído constante para reintegrar uma escuta mais ampla, onde o silêncio não é ausência, mas presença. Aprendemos a escutar o vento, a água, as plantas e os animais; a observar os ritmos da vida que se organiza de forma interdependente; a reconhecer que cada gesto humano tem impacto num sistema vivo muito maior.

A convivência com esta biodiversidade – ainda preservada em muitas das suas camadas – revelou-se um privilégio profundo. Observámos o encontro das águas, os diferentes caminhos que se abrem na floresta, a complexidade dos solos férteis e a presença silenciosa dos fungos, cujo micélio sustenta redes invisíveis de comunicação e cooperação. Percebemos, de forma concreta, que tudo está ligado, e que a vida se constrói a partir dessa relação contínua entre espécies, tempos e territórios.

Plantas Medicinais Peruanas

O contacto com árvores ancestrais, plantas medicinais e paisagens intactas ensinou-nos sobre cocriação, respeito e responsabilidade. Não como conceitos abstratos, mas como práticas, incorporadas no modo como os povos originários habitam e cuidam da floresta.

Após o ciclo da Dieta das Plantas Mestras, seguimos para a selva alta, aprofundando ainda mais o contacto com os mistérios e encantos desse território que, para muitos povos, é compreendido como um templo vivo. Um lugar onde conhecimento, espiritualidade e ecologia não se separam.

Estas viagens de pesquisa não são experiências isoladas, mas parte de um compromisso contínuo com o estudo sério, o respeito às tradições e a integração consciente dos aprendizados. Tudo o que atravessa o Satsang nasce desse princípio: honrar os saberes ancestrais sem os deslocar do seu contexto, reconhecendo-os como fontes vivas de ensinamento, e não como recursos.

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