Em 2022, nos vimos imersos no coração da Floresta Amazónica brasileira como parte de um percurso de estudo sério, contínuo e orientado pelo respeito às tradições originárias. Esta viagem não foi concebida como visita ou consumo cultural, mas como processo de cuidado, estudo e respeito, guiado pela necessidade de ir às raízes, escutar diretamente os guardiões do conhecimento e compreender os contextos vivos onde esses saberes existem.

Ao longo deste caminho, aproximámo-nos das histórias, cantos e práticas de povos originários como os Noke Koi, Huni Kuin, Puyanawa e Shawãdawa. Aprendemos sobre cultura, arte, preservação e espiritualidade a partir da convivência, da observação atenta e do tempo partilhado – reconhecendo que o conhecimento ancestral se transmite sobretudo pela presença e pela relação.

Tocar a terra, observar os ciclos e compreender os rituais foi um exercício profundo de humildade. Participámos de processos tradicionais como a preparação de remédios, de rapé e da sananga, sempre no contexto cultural que lhes dá sentido, e acompanhámos práticas de cuidado do corpo e do espírito como o kapum (kambô). A pintura corporal com urucum e jenipapo, bem como a partilha da bebida tradicional caiçuma, mostraram-nos que arte, cura e vida quotidiana não se separam: são expressões de um mesmo campo de saber.

Esta vivência levou-nos, juntamente com o povo Huni Kuin, à Aldeia Tamandaré, situada na confluência dos rios Muru e Jordão. Ali, o trabalho desenvolvido foi sobretudo de escuta e observação, procurando compreender as necessidades reais do território e refletir sobre o nosso papel: estar presentes sem intervir de forma impositiva, contribuir quando possível e aprender com responsabilidade.

A sabedoria ancestral que estes povos guardam manifesta-se nos corpos, nas narrativas e nos gestos. Os homens, como conhecedores profundos da floresta, relacionam-se com os mistérios das medicinas, dos animais e dos espíritos do território. As mulheres, com as suas mãos de criação, sustentam a vida através da arte, do canto, da tecelagem, da dança e da transmissão de princípios. Estes saberes desenvolvem-se na intimidade com a floresta e na vulnerabilidade que permite aprender com o que a rodeia.

No Satsang Natura, compreendemos estas viagens como parte de um compromisso ético contínuo. O desejo é que estes estudos possam crescer, aprofundar-se e prosperar, criando pontes reais – e não simbólicas – entre mundos. Pontes que permitam ouvir diretamente da fonte, apoiar quando necessário, regressar com responsabilidade e contribuir para melhorar a qualidade de vida de quem vive na e para a floresta.

Tudo o que atravessa o Satsang nasce deste princípio: respeitar os saberes ancestrais, honrar os seus guardiões e integrar os aprendizados com cuidado, seriedade e humildade, sem deslocá-los do território e da cultura que lhes dão origem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

top

Write a review